A Mente Escritural

Perdida

Arcipreste George Florovsky

Tradução: Rev. Pedro Oliveira Junior.

 

 

Conteúdo:

O Homem Moderno e a Escritura. Pregai os Credos! A Tradição Vive. O Que Calcedônia Significou. Tragédia em uma Nova Luz. Um Novo Nestorianismo. Um Novo Monofisismo. A Crise Moderna. A Relevância dos Padres.

 

 

"Como a Verdade está em Jesus" (Efésios 4:21).

Ministros Cristãos não são supostos pregar suas opiniões privadas, ao menos do púlpito. Ministros são comissionados e ordenados na igreja precisamente para pregar a Palavra de Deus. A eles são dados alguns termos fixos de referência nomeadamente, o Evangelho de Jesus Cristo e eles estão comprometidos com essa única e perene mensagem. É esperado que eles propaguem e sustentem "a fé que uma vez foi entregue aos santos." Por certo, a Palavra de Deus deve ser pregada "eficientemente." Isto é, ela deveria ser sempre apresentada carregando convicção e comandando a lealdade de toda nova geração e de todo grupo particular. Ela pode ser reapresentada em novas categorias, se as circunstâncias requererem. Mas, acima de tudo, a identidade da mensagem tem que ser preservada.

Tem-se que estar seguro de que se está pregando o mesmo Evangelho que foi entregue e que não se está, ao invés, introduzindo nenhum "evangelho estranho" de si próprio. A Palavra de Deus não pode facilmente ser ajustada ou acomodada aos costumes e atitudes passageiras de qualquer época particular, incluindo nosso próprio tempo. Infelizmente, nós, com freqüência, estamos inclinados a medir a Palavra de Deus com nossa própria estatura, ao invés de conferir nossa mente pela estatura de Cristo. A "mente moderna" também fica sob o julgamento do Verbo de Deus.

O Homem Moderno e a Escritura.

Mas é exatamente nesse ponto que nossa maior dificuldade começa. A maioria de nós perdeu a integridade da mente escritural, ainda que alguns bocados de fraseologia bíblica estejam retidos. O homem moderno freqüentemente reclama que a verdade de Deus é oferecida à ele em um "idioma arcaico" isto é, na linguagem da Bíblia que não é mais seu próprio idioma e não pode ser usado espontaneamente. Tem sido sugerido recentemente que nós deveríamos "desmitolizar" radicalmente a Escritura, significando substituir as categorias antiquadas do Santo Escrito por algo mais moderno.Porém a questão não pode ser evitada: é a linguagem da Escritura realmente nada mais do que um embrulho acidental e externo do qual algumas "idéias eternas" devem ser desembrulhadas e desemaranhadas, ou é mais um veículo perene da mensagem divina, que foi entregue uma vez para todo o sempre?

Nós estamos em perigo de perder o caráter único da Palavra de Deus no processo de contínua "reinterpretação." mas com nós poderemos de todo interpretar se nós esquecemos a linguagem original? Não seria mais seguro nós inclinarmos nosso pensamento para os hábitos mentais da linguagem bíblica e reaprender o idioma da Bíblia? Nenhum homem pode receber o Evangelho a menos que ele se arrependa "mude sua mente." Pois na linguagem do Evangelho "arrependimento" (metanoeite) não significa meramente reconhecimento e contrição pelos pecados, mas precisamente uma "mudança de mentalidade" uma profunda mudança da atitude mental e emocional do homem, uma renovação integral do "self" do homem, que começa com sua auto-renuncia e é realizada e selada pelo Espírito Santo.

Nós estamos vivendo agora numa época de caos e desintegração intelectual. Possivelmente o homem moderno ainda não se deu conta, e a variedade de opiniões está além de qualquer esperança de reconciliação.Provavelmente o único sinal luminoso que nós temos para nos guiar através da neblina de nossa época desesperada é justamente a "fé que uma vez foi entregue para os santos," obsoleta ou arcaica como o idioma da Igreja Primitiva possa parecer, quando julgado por nossos padrões passageiros.

Pregai os Credos!

O que, então, vamos pregar? O que eu pregaria para meus contemporâneos "em um tempo tal como esse?" Não há espaço para hesitação: eu vou pregar Jesus, e Ele crucificado e ressuscitado. Eu vou pregar e recomendar a todos a quem eu possa chamar para endereçar a mensagem de salvação, como ela me foi entregue por uma ininterrupta tradição da Igreja Universal. Eu não vou me isolar na minha própria época. em outras palavras, eu vou pregar as "doutrinas do Credo."

Eu estou plenamente consciente que credos são uma pedra de tropeço para muitos em nossa própria geração. "Os credos são símbolos veneráveis, como as bandeiras esfarrapadas sobre as paredes de igrejas nacionais; mas para a presente guerra de igrejas na Ásia, na África, na Europa e América os credos, quando eles são compreendidos, são quase tão úteis quanto um machado-de-batalha ou um arcabuz nas mãos de um soldado moderno." Isso foi escrito alguns anos atrás por um proeminente erudito inglês que também é um devoto ministro. Possivelmente ele não escreveria isso hoje em dia. Mas ainda há muitos que fariam de todo coração essa vigorosa afirmação sua própria. Lembremos, no entanto, que os primeiros credos foram deliberadamente escriturais, e é precisamente sua fraseologia escritural que os torna difíceis para o homem moderno.

Assim nós enfrentamos o mesmo problema de novo: o que podemos oferecer ao invés da Sagrada Escritura? Eu preferiria a linguagem da Tradição, não por conta de um preguiçoso e crédulo "conservadorismo"ou uma cega "obediência" para algumas "autoridades" externas, mas sim porque eu não consigo encontrar nenhuma fraseologia melhor. Eu estou preparado para me expor à inevitável acusação de ser "antiquado" e "fundamentalista." E eu protestarei que essa acusação é gratuita e errada. Eu mantenho e sustento as "doutrinas do credo," conscientemente e de todo coração, porque eu apreendi por fé sua perene adequação e relevância para todas as épocas e todas situações, incluindo "um tempo tal como esse." E eu creio que precisamente as "doutrinas do credo" é que podem capacitar uma geração desesperada como a nossa a recuperar a coragem e visão Cristãs.

A Tradição Vive.

"A Igreja não é nem um museu de depósitos mortos nem uma sociedade de pesquisas." Os depósitos estão vivos depositum juvenescens, para usar a frase de Santo Irineu. O Credo não é uma relíquia do passado, mas sim a "espada do Espírito." A reconversão do mundo ao Cristianismo é o que nós devemos pregar em nossos dias. É o único caminho para fora do impasse para o qual o mundo foi dirigido pela falha dos Cristãos em ser Cristãos verdadeiros. Obviamente, a doutrina Cristã não responde diretamente qualquer questão prática no campo de política e economia. Nem responde a isso o Evangelho de Cristo. No entanto seu impacto no curso todo da história humana tem sido enorme. O reconhecimento da dignidade humana, misericórdia e justiça se enraízam no Evangelho.Um mundo novo só pode ser construído por um novo homem.

O Que Calcedônia Significou.

"E se fez homem." Qual é a conotação definitiva dessa afirmação do credo? Ou, em outras palavras, Quem foi Jesus, o Cristo e o Senhor? O que significa na linguagem de Calcedônia, que o mesmo Jesus era "perfeito homem" e "perfeito Deus," porém uma singular e única personalidade? "O homem moderno" é normalmente muito crítico dessa definição de Calcedônia. Ela falha em transferir qualquer significado para ele. O "imaginário" do credo é para ele nada mais do que uma peça de poesia, quando muito. Toda aproximação, eu acho, está errada. A "definição" de Calcedônia não é uma afirmação metafísica, e nunca pretendeu ser tratada com tal. Nem o mistério da Encarnação foi um "milagre metafísico." A fórmula de Calcedônia foi uma afirmação de fé, e daí não poder ser entendida quando considerada fora da experiência total da Igreja. De fato, é uma "afirmação existencial."

A fórmula de Calcedônia é, como se fosse, um contorno intelectual do mistério que é apreendido pela fé. Nosso Redentor não é um homem, mas o próprio Deus. Aqui está a ênfase existencial da afirmação. Nosso Redentor é um que "desceu" e que, por "se fazer homem," se identificou com homens na comunhão de uma verdadeira vida e natureza humana. Não só a iniciativa foi divina, mas o Capitão da Salvação era uma Pessoa divina. A plenitude da natureza humana de Cristo significa simplesmente a adequação e verdade dessa identificação redentora. Deus entra na história humana e torna-se uma pessoa humana.

Isso soa paradoxal. Na verdade há um mistério: "E sem controvérsia grande é o mistério da piedade; Deus se manifestou na carne." Mas esse mistério foi uma revelação; o verdadeiro caráter de Deus foi aberto na Encarnação. Deus estava tanto e tão intimamente preocupado com o destino do homem (e precisamente com o destino década um dos "pequeninos") que interveio em pessoa no caos e miséria da vida perdida. A providência divina não é portanto meramente um onipotente governar o universo de uma augusta distância pela divina majestade, mas sim uma kenosis, uma "auto-humilhação" do Deus da glória. Há uma relação pessoal entre Deus e o homem.

Tragédia em uma Nova Luz.

O todo da tragédia humana aparece portanto em uma nova luz. O mistério da Encarnação foi um mistério do amor divino, da divina identificação com o homem perdido. E o clímax da Encarnação foi a Cruz.É o ponto de virada do destino humano. Mas o terrível mistério da Cruz só é compreensível na perspectiva mais ampla de uma Cristologia integral; isto é, só se nós acreditarmos, de fato, que o Crucificado foi na verdade "o Filho do Deus vivo." A morte de Cristo foi a entrada de Deus na miséria da morte humana (de novo em pessoa), uma descida ao Hades, e isso significou o fim da morte e a inauguração da vida eterna para o homem.

Há uma espantosa coerência no corpo da doutrina tradicional. mas ela pode ser captada e compreendida somente no contexto vivo da fé, pelo que eu significo uma comunhão pessoal com o Deus pessoal. Só a fé faz fórmulas convincentes; só a fé faz fórmulas vivas. "Parece paradoxal, porém é a experiência de todos os observadores de coisas espirituais: ninguém aproveita o Evangelho a menos que primeiro se tenha amor por Cristo." Pois Cristo não é um texto mas uma pessoa viva, e Ele habita em Seu corpo, a Igreja.

Um Novo Nestorianismo.

Pode parecer ridículo que alguém sugira que se deveria pregar a doutrina de Calcedônia "num tempo tal como esse." No entanto, é precisamente essa doutrina aquela realidade para a qual essa doutrina dá testemunho que pode mudar toda visão espiritual do homem moderno. Ela o leva para uma verdadeira liberdade. O homem não está sozinho nesse mundo, e Deus está tendo interesse pessoal nos eventos da história humana. Essa é uma implicação imediata da concepção integral da Encarnação. É uma ilusão que as disputas Cristológicas do passado são irrelevantes na situação contemporânea. De fato, elas são continuadas e repetidas em nossa própria época. O homem moderno, deliberada ou subconscientemente, é tentado pelo extremo Nestoriano. Quer dizer, ele não olha a Encarnação a sério. Ele não ousa acreditar que Cristo é uma Pessoa divina. Ele quer ter um redentor humano, somente assistido por Deus. Ele está mais interessado em psicologia humana do Redentor do que em amor divino.Porque, em última instância, ele acredita otimistamente na dignidade do homem.

Um Novo Monofisismo.

No outro extremo temos em nossos dias um renascimento de tendências "monofisitas" em teologia e religião, quando o homem é reduzido a uma completa passividade e é autorizado só a ouvir e ter esperança. A presente tensão entre "liberalismo" e "nova-ortodoxia" é, de fato, um restabelecimento da velha luta Cristológica, num novo nível existencial e numa nova chave espiritual. O conflito nunca será resolvido no campo da teologia a menos que uma visão mais ampla seja adquirida.

Na Igreja Primitiva a pregação era enfaticamente teológica. Não era uma vã especulação. O Novo Testamento é, em si, um livro teológico. A negligência em teologia na instrução dada aos leigos nos tempos modernos é responsável tanto pelo decaimento da religião pessoal quanto por aquela sensação de frustração que domina o ânimo moderno. O que precisamos no Cristianismo "em um tempo tal como esse" é exatamente uma teologia sã e existencial. De fato, clero e fiéis estão sedentos por teologia. E porque normalmente teologia não é pregada, eles adotam algumas "estranhas ideologias" e combinam essas com fragmentos de crenças tradicionais. O apelo todo dos "evangelhos rivais" dos nossos dias é que eles oferecem algum tipo de pseudo teologia, um sistema de pseudo dogmas. Eles são alegremente aceitos por aqueles que não conseguem encontrar nenhuma teologia no Cristianismo reduzido do estilo "moderno." Aquela alternativa existencial que muitos enfrentam em nossos dias foi adequadamente formulada Poe um teólogo inglês, "Dogma ou...morte" . A época de a-dogmatismo e pragmatismo acabou. E por isso os ministros da igreja devem pregar de novo doutrinas e dogmas a Palavra de Deus.

A Crise Moderna.

A primeira função do pregador contemporâneo é a "reconstrução da crença." Não é, de modo nenhum, um esforço intelectual. Crença é simplesmente um mapa do mundo verdadeiro, e não deveria ser trocada pela realidade. O homem moderno tem se preocupado muito com suas próprias idéias e convicções, com suas próprias atitudes e reações. A crise moderna precipitada pelo humanismo (um fato inegável) foi trazida pela redescoberta do mundo real, no qual nós acreditamos. O redescobrimento da Igreja é o mais decisivo aspecto desse novo realismo espiritual. A realidade não é mais escondida de nós pela parede de nossas próprias idéias. Está de novo acessível. Está de novo constatado que a Igreja não é simplesmente uma companhia de crentes, mas o "Corpo de Cristo." Isso é a redescoberta de uma nova dimensão, uma redescoberta da presença contínua do divino Redentor no meio do Seu fiel rebanho. Essa redescoberta joga um novo foco de luz na miséria de nossa existência desintegrada num mundo totalmente secularizado. Já é reconhecido por muitos que a verdadeira solução de todos problemas sociais está, de alguma forma, na reconstrução da Igreja. Em um "tempo tal como esse" tem-se que pregar o "Cristo total," Cristo e a Igreja totus Christus, caput et corpus, para se usar a famosa frase do Bem aventurado Agostinho. Possivelmente essa pregação é ainda não usual, mas parece ser o único modo de pregar o Verbo de Deus eficientemente num período de obscuridade e desespero como o nosso.

A Relevância dos Padres.

Com freqüência eu tenho um estranho sentimento. Quando eu leio os antigos clássicos da teologia Cristã, os padres da Igreja, eu os acho mais relevantes para as confusões e problemas de meu próprio tempo do que a produção dos teólogos modernos. Os Padres estiveram lutando com problemas existenciais, com aquelas revelações de assuntos eternos que estavam descritas e registradas na Sagrada Escritura. Eu arriscaria uma sugestão de que Santo Atanásio e o Bem aventurado Agostinho são muito mais atualizados que nossos teólogos contemporâneos. A razão é muito simples: eles estiveram lidando com coisas e não com tabelas, eles não estiveram tão preocupados com que os homens podia acreditar como com o que Deus tinha feito para os homens. Nós temos em um "tempo tal como esse," que alargar nossa perspectiva, para reconhecer os mestres do passado, e tentar para nossa própria época uma síntese existencial da experiência Cristã.

"A Mente Escritural Perdida apareceu originalmente na edição de 19 de Dezembro de 1951 do The Christian Century como "As the Truth is in Jesus." Direitos autorais da The Christian Century Foundation.

 

Folheto Missionário número P95

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Redator: Bispo Alexandre Mileant

(scriptural_mind_p.doc, 07-09-2003)